O Desafio do Descarte de Baterias e o Impacto Ambiental

Há muito se diz que brasileiro sempre foi um apaixonado por carro. Tanto que, em 1934, o presidente Getúlio Vargas criou o Dia do Automóvel no Brasil, comemorado no dia 13 de maio. Mas essa paixão é mundial, foi muito além de meio de transporte e virou sinônimo de status, poder e prestígio.

Tornou-se um mal necessário: além de diminuir a distância e ser um facilitante, podemos até dizer que não temos como ver o mundo sem carros, vivemos sobre rodas.

Mas agora as coisas estão mudando: de paixão a vilão. Tem quem diga que jamais! Mas… Como não? É um dos maiores poluidores de ar e, por isso, chegamos ao ponto de precisar com urgência de energia limpa, precisamos descarbonizar o planeta, mudar o combustível fóssil, e uma das apostas está justamente nos carros elétricos. A tendência no Brasil são carros híbridos flex – elétricos e combustíveis, e a intenção é diminuir a emissão de CO² na atmosfera.

Onde queremos chegar? Mesmo com crescente avanço da tecnologia e a busca por soluções mais sustentáveis, temos aqui uma questão ambiental muito importante: as baterias de íon-lítio, utilizadas em veículos elétricos. No entanto, por trás desse “aparente” benefício ambiental, temos um desafio significativo: o descarte adequado dessas baterias após o término de sua vida útil.

Para entender melhor essa questão do descarte de baterias, entrevistamos Pedro Lombradi Filho, Engenheiro formado pela Escola Politécnica – USP com MBA em Gestão Ambiental, para falarmos sobre as alternativas para um descarte mais sustentável e o papel, tanto da indústria quanto das regulamentações governamentais, na intervenção desse problema crescente.

King – Quais são os principais componentes perigosos presentes nas baterias de carros elétricos e como seu descarte inadequado afeta o meio ambiente?

Pedro – As baterias utilizadas em carros elétricos são as de lítio íon, sistemas de armazenamento de energia, com ciclo de vida médio de 08 a 12 anos. Ao contrário do que muitos pensam, são recicláveis e basicamente são compostas de metais como cobalto, lítio, cobre e alumínio. Já as baterias tradicionais utilizadas nos carros à combustão são as de chumbo ácido que utilizam metais perigosos como chumbo. As baterias lítio íon são sistemas sensíveis, sua destinação em locais inapropriados pode desencadear o efeito de descontrole térmico por meio de manejo inadequado, ou aumento de temperatura, com risco de incêndios e explosões.

King – Como o aumento da demanda por veículos elétricos está impactando na quantidade de baterias descartadas e quais são os desafios associados ao gerenciamento desses resíduos?

Pedro – O mercado de carros elétricos no país está aumentando nos últimos anos, em 2023 foram em torno de 20.000 veículos comercializados, o dobro de 2022. Apesar desse número não atingir 1% das vendas de carros no Brasil e o ciclo de vida útil das baterias ser alto, a preocupação com a sua destinação e de demais componentes eletrônicos é legítima. O desafio é impedir que esses materiais sejam descartados de forma irregular, ou seja, criar fluxos, em tempo, para a destinação correta desses resíduos que suporte o aumento em escala dos próximos anos. Essas medidas devem influenciar os principais atores do processo que envolvem: a geração, coleta e transporte, os locais de destinação com tratamento adequado, os setores envolvidos (indústria, comércio) e o governo como regulador e facilitador.

King – Quais são as consequências ambientais do descarte incorreto de baterias de íon-lítio em aterros sanitários e corpos d’água?

Pedro – As baterias de lítio íon são sistemas sensíveis que com aumento de temperatura ou forma inadequada de manejo podem se tornar instáveis com riscos de incêndios e explosões, por isso não devem ser destinadas a aterros sanitários, locais regularizados para recebimento de resíduos sólidos urbanos não perigosos. O funcionamento dos aterros envolve reações químicas na massa dos resíduos depositados, o que gera aumento de temperatura na fase aeróbia e produção de metano na anaeróbia, intensificando os riscos.

King – Quais são as alternativas para o descarte sustentável de baterias de grande porte, como as de carros elétricos, e como essas soluções podem mitigar o impacto ambiental?

Pedro – A melhor forma é seguir o sistema de logística reversa já implantado para as baterias chumbo ácido utilizadas nos carros a combustão, que por meio de acordo setorial implementou o Sistema de Logística Reversa de Baterias Chumbo Ácido que já adquiriu escala no país. O sistema proporciona a troca da bateria antiga, incluindo sua coleta no ato, por empresas certificadas, criando fluxo para destinação regularizada e segura. Esse procedimento reduz o descarte irregular. Porém, o mercado de baterias elétricas deve estar abastecido com peças de reposição, praticar preços compatíveis e não aplicar a obsolescência programada, evitando assim maior demanda e formação de mercado paralelo.

No caso das baterias de equipamentos de menor porte como celulares, tablets e notebooks a logística reversa segue o mesmo formato com a troca por novo em lojas habilitadas, nesse caso, depende mais da conscientização do usuário entregar a bateria antiga em local adequado, levando voluntariamente o produto a um ponto de coleta certificado.

Vale ressaltar que a reciclagem das baterias elétricas deve ser realizada sempre por empresas habilitadas, pelos riscos envolvidos. Outro ponto é a desmontagem das células, que atualmente é realizado manualmente, o que encarece o processo, direcionando o mercado à exploração do metal lítio na natureza.

King – Qual é o papel da indústria e das regulamentações governamentais na gestão responsável do ciclo de vida das baterias, desde a produção até o descarte, visando minimizar o impacto ambiental?

Pedro – O governo tem papel fundamental como regulamentador e fiscalizador da indústria em todas as fases do processo: extração mineral, processamento e fabricação das peças, e do comércio, com participação na logística reversa. São atores importantes para a aplicação de um modelo econômico circular que propõe o retorno dos resíduos como insumo a novos produtos.

Para os futuros usuários de carros elétricos é importante ressaltar que todo o processo deve ser entendido e computado na pegada ambiental, ou seja, se a proposta é ter um veículo que gere menor impacto ao ambiente, não basta simplesmente comparar emissões ou não de CO2 no final da cadeia. Assim como a exploração do petróleo, a extração de lítio gera uma série de impactos ao meio, entre eles, a enorme quantidade de água necessária para sua extração, 2,3 milhões de litros de água para uma tonelada de lítio, afetando ecossistemas.

Nossas principais jazidas estão no Vale do Jequitinhonha – Chapada do Lagoão – MG, área de preservação ambiental e com a escalada iminente na produção de veículos e intensificação nas explorações, é necessária uma fiscalização intensa para que os estudos e relatórios de impactos ambientais, normas e legislações sejam devidamente seguidos.

Outro ponto relevante é a matriz energética que irá alimentar esses carros, aqui no Brasil temos as hidrelétricas com matriz considerada limpa, sem contar os impactos de sua implantação, além das solares e eólicas. O que não faz muito sentido é abastecer um carro elétrico com energia derivada de petróleo e carvão.

PEDRO LOMBARDI FILHO

Engenheiro formado pela Escola Politécnica – USP, MBA em Gestão Ambiental – USP, mestrado em Ambiente Saúde e Sustentabilidade na Faculdade de Saúde Pública –USP, doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade – USP. Atualmente é pós-doutorando no Instituto de Estudos Avançados IEA – USP. Sócio diretor da MBrazil Engenharia de Soluções e Com Integrada na área de gestão ambiental de resíduos sólidos em municípios e no gerenciamento de projetos, construções e manutenção e pesquisador no programa Municípios Sustentáveis – Centro de Síntese – Cidades Globais – USP com apoio aos municípios na gestão integrada de resíduos sólidos urbanos e plano de gerenciamento integrado dos resíduos PGIRS.

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